Um sonho, um poema, uma descoberta
A INCRÍVEL HISTÓRIA DA DESCOBERTA DE TRÓIA
Um sonho, um poema, uma descoberta
Era uma vez um menino pobre que ouvia embevecido seu pai contar muitas histórias das Civilizações Clássicas. Encantou-se particularmente com a história da cidade de Tróia e uma gravura estampada em um livro que ganhou no Natal, representando personagens históricos fugindo da cidade em chamas, não lhe saía da cabeça.
O garoto não se conformava com o fato, narrado pelo pai, que nenhum vestígio da cidade de Tróia fora até então encontrado, o que remetia a famosa batalha entre gregos e troianos para o campo das lendas e dos mitos. Nada havia, histórica ou cientificamente, que comprovasse a existência real daquela saga.
Mas o menino sonhava e dizia para o pai: "Quando eu for grande, hei de encontrar Tróia e também o tesouro do rei". Esse menino, nascido na Alemanha em 1822, chamava-se Heinrich Schliemann e esta é sua incrível história.
Heinrich, por necessidade, parou de estudar aos 14 anos e foi trabalhar numa loja de secos e molhados. Um dia, um bêbado entra na loja e começa, entre soluços, a declamar estranhos versos.
O menino nada entende, mas, quando descobre que são versos da Ilíada de Homero, paga ao ébrio alguns goles a mais para que ele os repita.
Toma então uma decisão: vai sair pelo mundo e ganhar a vida para que possa então se dedicar ao seu objetivo de vida, o seu sonho. Engaja-se num navio que se destina a América do Sul e que acaba naufragando após ser açoitado por terrível tempestade.
Salvo por milagre, vai parar em um hospital onde convalesce e se recupera, sendo, então, mandado para Amsterdã onde amigos da família arranjam-lhe um modesto emprego.
Começa a demonstrar então uma incrível facilidade no aprendizado de línguas. Em pouco tempo, domina o inglês, o francês, o holandês, o italiano, o espanhol e o português.
A firma em que trabalha mantém relações comerciais com a Rússia, mas ninguém conhece o idioma. Rapidamente, o jovem Schliemann domina o russo, o que lhe vale sucessivas promoções.
Mas um novo objetivo estava nascendo na imaginação do incansável Schliemann: achar os restos da cidade de Micenas, o rico reino dos Pelópidas. E, como sempre, ele foi buscar orientação nas obras clássicas de Ésquilo, Sóflocles e Eurípedes e nos relatos de viagens de Pausânias. Outros haviam tentado o mesmo caminho sem êxito, fracasso atribuído por Schliemann a traduções incorretas dos textos clássicos.
Seu êxito, portanto, não se restringe ao aprendizado de línguas. Quanto mais estuda mais progride em sua vida profissional. Com 24 anos, funda seu próprio estabelecimento, fixa sua residência na Rússia e começa a viajar pelo mundo: Estados Unidos, Egito, Síria, Grécia e, por onde passa, novos idiomas são acrescentados à seu cabedal.
SUA BUSCA
Aos 46 anos, já homem de muitas posses e realizado profissionalmente, no auge de sua carreira comercial, resolve abandonar tudo que construiu e dedicar-se integralmente à realização de seu sonho de infância, jamais esquecido: descobrir Tróia!
Em 1868 parte para Ítaca, a ilha onde nascera Ulisses, o herói mitológico da Odisséia de Homero.
E é lendo os poemas de Homero que Schliemann se convence, cada vez mais, da existência real de Tróia. Não é possível que a riqueza de detalhes que Homero imprime em suas obras tenha sido inventada. Ele resolve então seguir, passo a passo, as descrições contidas na Ilíada e na Odisséia.
Uma estranha figura fazia aquele alemão obstinado que, com um relógio em uma das mãos e o livro de Homero na outra, percorria à pé as terras da Frígia, hoje Turquia, nas margens do Mar Egeu, medindo distâncias, comparando citações, identificando os lugares geográficos descritos, relocando as fontes de água que existiam e desapareceram com o tempo, enfim, reconstituindo toda uma época, trazendo-a para o presente.
Quando ele chega à Colina de Hissarlik (que quer dizer "palácio"), todas as descrições de Homero parecem coincidir com o que ele vê e sente. Levanta seu olhar cansado e vê, ao longe, o Monte Ida do cume do qual, segundo o poeta, Júpiter dominava a cidade de Tróia.
Não há mais dúvidas. Schliemann se põe a escavar com a ajuda de cerca de 100 trabalhadores. Muitos o chamam de louco - afinal, o alemão não era um arqueólogo no conceito que se tinha dessa profissão no século XIX, ou seja, estudiosos que não saíam da luz dos seus gabinetes e jamais se aventurariam ao sol escaldante das escavações.
Mas o alemão não desiste: enfrenta todas as agruras e as supera, pois move-lhe o impulso irrefreável de realizar seu sonho de criança.
De repente, começam a surgir objetos diversos, armas e utensílios domésticos. Ali deve haver uma cidade! E realmente havia, não uma, mas nove, construídas em épocas diferentes, umas sobre as outras. Qual das nove seria Tróia?
Ao descobrir vestígios de fogo nos restos da sétima e oitava camada, julgou ter encontrado Tróia e seus relatos, além de darem à Arqueologia uma nova dimensão, trouxeram-lhe fama, reconhecimento e muitas críticas pelo método de trabalho que utilizara.
Logo depois, encontrou um grande tesouro que imediatamente atribuiu como sendo de Príamo, o último rei de Tróia.
MICENAS
Mas um novo objetivo estava nascendo na imaginação do incansável Schliemann: achar os restos da cidade de Micenas, o rico reino dos Pelópidas. E, como sempre, ele foi buscar orientação nas obras clássicas de Ésquilo, Sóflocles e Eurípedes e nos relatos de viagens de Pausânias. Outros haviam tentado o mesmo caminho sem êxito, fracasso atribuído por Schliemann a traduções incorretas dos textos clássicos.
E, da mesma forma que agira em relação à Tróia, ele segue passo a passo as descrições das obras clássicas e descobre, finalmente, vários túmulos, entre os quais o de Agamenon, o lendário rei de Micenas e, ao lado deles, um incomensurável tesouro, representado por jóias, coroas, cristais, pedras preciosas e máscaras funerárias de ouro.
Uma descoberta que, pela sua magnitude, só seria suplantada anos mais tarde com a descoberta da tumba de Tutancâmon, no Egito. Era mais um mito que se tornava realidade.
Seu novo objetivo agora é Tirinto, o antigo centro da civilização micênica. E ele escavou com sua fé habitual e novamente encontrou o que procurava.
As descobertas arqueológicas de Tirinto, no entanto, se revestiriam de grande importância na medida em que traçaram uma estranha e aparentemente inexplicável ponte cultural entre esta antiga civilização micênica e as encontradas posteriormente na Ilha de Creta e no Egito. Havia grandes semelhanças no tipo de cerâmica, nas pinturas dos murais, nos objetos de uso cotidiano e na representação de muitas divindades.
Posteriormente, as idéias de Schliemann, que morreu em 1890, seriam comprovadas pelas descobertas em Creta feitas pelo arqueólogo inglês Arthur Evans que agiu como o seu antecessor, seguindo as pistas do que diziam as lendas e as sagas.
Hoje sabe-se que a Tróia descrita por Homero corresponde aos estratos 6 e 7 (1900 a 1100 a.C.) e que a Guerra de Tróia realmente ocorreu como descrita pelo poeta, no começo do século XII a.C. e teria sido ocasionada por uma disputa comercial entre os Aqueus (Gregos) e os Troianos (Frígios dos Balcãs, aparentados com os gregos), com a vitória dos primeiros.
Sabe-se também que a Tróia mais antiga, correspondendo ao último estrato, remonta à Idade do Bronze, cerca de 3000 a.C..
A Primeira Tróia, Nova Ílion, seria do período latino que vai de 85 a.C. a 324 d.C. e o tesouro que foi considerado como sendo de Príamo, na realidade, pertencera a um rei mil anos mais antigo do que ele.
Depois de Schliemann, críticas à parte, a Arqueologia nunca mais foi a mesma.
HOMERO
Muito se fala sobre o poeta e pouco se conhece sobre a sua vida.
Segundo o historiador grego Heródoto, Homero seria de origem jônica e teria vivido no século IX a.C. Mas há menções ao poeta que datam desde o século XII a.C.
Segundo se sabe Homero não escreveu diretamente seus poemas, mas, como era costume em sua época, transmitiu-os por via oral.
Relatos dão conta de que era cego e de origem modesta, provavelmente vivendo como poeta vinculado a cortes de reis e príncipes.
Suas obras Ilíada e Odisséia apresentam sensíveis diferenças de estilo, o que leva muitos estudiosos a defender a tese de que ambas seriam obras de autores diferentes, ou ainda simples compilação de poesias populares anônimas que passaram de geração para geração.
AIlíadadescreve a guerra que gregos e troianos travaram em 1250 a.C..
Homero retrata os episódios como se fosse um verdadeiro repórter que esteve presente aos acontecimentos, tal é a riqueza de detalhes. A narrativa gira em torno do herói Aquiles, de Heitor, Príamo, Páris e da heroína Helena, todos procurando através da glória das proezas militares, o reconhecimento de seus atos pelas gerações futuras.
Já a Odisséia retrata o retorno à pátria do herói Ulisses, após a Guerra de Tróia, em aventuras e desafios que perduram por longos 10 anos. Obra recheada de simbologia é vista por estudiosos como uma ode à retomada de consciência por parte do povo grego, um poema que enaltece a reeducação dos sentidos e que retrata a vitória da inteligência sobre a força bruta.
As duas obras de Homero desfrutaram de intensa popularidade na Antigüidade, servindo de base para o ensino, além de influenciarem enormemente os poetas épicos gregos e latinos. Quase toda a poesia épica ocidental tem por base os poemas de Homero, servindo como padrão ético e estético. A cultura literária clássica européia foi fortemente influenciada por essas duas obras, influência esta que se universalizou, perdurando e encontrando ressonância até os dias de hoje.
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Por: UM MUNDO BEM MELHOR
Josival Moreira
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